segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sentimentos Revistos


Estava há quase quarenta minutos dentro da banheira, tinha posto sais o suficiente para uma semana. Sentia-se tonta, mas não tinha pretensão de sair de lá, preferia a vertigem a ter que pensar no que havia acontecido em frente à estação. Seu peito era um turbilhão de emoções, não sabia exatamente como se comportar, o que pensar, no que falar. Seus longos cabelos acobreados brilhavam ígneos colados as suas costas, de vez em quando passava as mãos, já murchas, por eles e tentava organizar seus pensamentos. Não poderia passar o resto da vida dentro de uma banheira, levantou-se e saiu enrolada na toalha em direção ao seu quarto. A casa estava silenciosa, mesmo sendo domingo seus pais trabalhavam até tarde. Colocou um pijama, pegou seu gato cor de âmbar e se deitou na cama. As cenas passavam rápidas por sua mente, os sons, as palavras... “Eu te amo!” Adormeceu...
            O despertador martelava em seus ouvidos um zumbido estridente, ainda zonza de sono ela desligou o pequeno aparelho enquanto via as horas. Estava atrasada, muito atrasada. Levantou-se rápido, colocou o uniforme, comeu um pedaço de pão e correu para fora de casa. Lá estava ele do outro lado da rua, escorado em um poste de iluminação, a mochila pendendo de um ombro. Ele acenou. Subitamente sentiu seu rosto ficar quente, as pernas perderam a rigidez habitual, ela sentia-se estranha, novamente o turbilhão de emoções subiu em seu peito. Ela caminhou em sua direção, o rosto afogueado, prometeu a si que agiria normalmente.
- Bom dia Ann! – ele a cumprimentou normalmente
- ... dia Matt – sua voz era quase um sussurro.
            Caminharam em silêncio por quase quinze minutos, quando o garoto rompeu o silêncio:
- Ann, sobre ontem... eu... – tinha a cabeça baixa e brincava nervosamente com a alça da mochila.
- Eu não sei como responder ainda Matt... – ela se surpreendeu por falar tão claramente, suas bochechas estavam vermelhas. – Estou pensando, mas meus sentimentos por você... eu...eu... não sei...
- Ann, eu não... – ela não o deixou terminar, começou a correr tão rápido quanto podia. O garoto ficou atônito com aquilo, precisava explicar-se, o que ela havia dito os sentimentos dela por ele... Não conseguia entender.
* * *
            A manhã passava arrastada, às vezes a garota olhava para ele de relance, sem saber o que fazer, procurava respostas em sua mente, ela não conseguia concentrar-se em aula, mais de uma vez seus professores chamaram sua atenção. Sentia-se tão confusa, perguntava-se se realmente havia se apaixonado pelo garoto que antes chamara de irmão...
                                                 * * *
            As coisas não iam como planejadas, de vez em quando podia sentir os olhos de Anabelle. Tudo tinha saído errado, sua confissão, sua tentativa de se explicar, tudo. Esperava poder esclarecer as coisas quanto o intervalo para o almoço chegasse, às vezes comiam juntos, então usaria esse tempo para explicar os fatos... “Meus sentimentos por você”, ela havia dito, será que ela sentia algo por ele? Aquilo o deixou um pouco confuso, olhou vaziamente para frente e encontrou os olhos de Ann. Parecia muito mais bonita que o normal, seus longos cabelos cor de fogo brilhavam com a luz da manhã, sentiu-se um pouco encabulado, seu rosto estava quente. Os dois desviaram o olhar.
            Mais alguns minutos até o intervalo, sua mente estava confusa... Porque desviara o olhar? Eram amigos a mais tempo do que podiam lembrar, sempre trocavam olhares assim em aula, fosse por algo que o professor disse, fosse por uma piada contada durante a vinda para a escola ou qualquer colega fazendo palhaçada, então por quê?
            Não conseguia entender. O sinal soou e resoluto, levantou-se e caminhou até a mesa dela...

sábado, 2 de junho de 2012

Início


Os dois andavam cada vez mais distantes, fora apenas um mal entendido, mas mudara completamente o longo relacionamento que tinham.
            Havia alguns dias tinham combinado de encontrarem-se para sair a caminhar pelo distrito comercial da cidade, pensaram em comer algo em um café argentino, olhar algumas lojas, ela de roupas e livros e ele de jogos e CDs, nada fora do comum.
            Marcaram de se encontrarem na frente da estação de trens, seu local habitual. O garoto caminhava compassado, em um ritmo quase musical. A menina em leves passos curtos, quase como uma bailarina. Ele, com o cabelo negro remexido pelo vento e ela com seus longos cabelos acobreados ondulando ao sabor da brisa. Caminhavam rumo ao local de encontro, sem preocupações, era outono e as folhas caíam levemente nas calçadas. Conheciam-se desde o primário, eram quase como irmãos, ele sempre a protegeu de todo “mal” que pode, consolou-a em seu primeiro relacionamento falido, passava calmamente a mão por sua cabeça cor de fogo enquanto murmurava que estava tudo bem. Ela havia sido seu pilar de força quando ele também se machucou em seu primeiro relacionamento, passava levemente suas alvas mãos pelos negros cabelos dele, sem dizer palavra. Tratavam-se como irmãos desde a 8ª série, muitos boatos surgiam em torno do relacionamento dos dois, mas nunca deixaram eles acabarem com tão longa amizade.
            O garoto gostava de certa menina de sua turma, que por sua vez era amiga de sua “irmã”, a qual pediu que arranjasse um encontro entre os dois. A garota por sua vez não sentia nada em particular por garoto nenhum, o que para ela era, de certo modo, muito bom, pois podia concentrar-se em seus treinos de karatê.
            Era quase o horário combinado, os dois estavam bem próximos da estação, o garoto podia avistar as barras de proteção prateadas na calçada, mas o que mais saltava a sua vista era a menina de quem gostava. Seus cabelos dourados esvoaçavam ao sol de outono. Conversava com algumas amigas, tinha um ar delicado e feminino, o garoto sorriu, tinha decidido que falaria com ela naquele momento, esquecera do encontro com sua amiga. Caminhou a passos firmes em sua direção, resoluto. A garota avistou de longe seu “irmão” caminhando firmemente em direção a estação, podia ver um pequeno sorriso em seu semblante, determinado como nunca vira. Apressou-se e foi em sua direção, colocando-se em frente à menina com a qual ele falava. Não a vira ali recuada perto da parede, saudou-o com um sorriso nos lábios, mas parou a meia palavra quando ouviu as palavras de amor do garoto que há muito tinha como um irmão. Ele de olhos semicerrados, pronunciava seu afeto para quem achava que era sua “amada”, sua melhor amiga atônita com as palavras que escutava e a outra menina havia sumido, caminhando com suas amigas. Naquele instante, eram apenas os dois, de pé em frente à estação quase vazia.
            O garoto abriu os olhos e viu para quem havia se confessado. A menina estava congelada diante dele, mais corada que o habitual. Tentou pronunciar algo que explicasse o ocorrido, mas não foi rápido o suficiente, ela havia corrido para longe dele. Tentou a alcançar, mas com o condicionamento físico dela, foi inútil. Ligou para o celular dela, apenas caixa postal, pensou em ir a sua casa, explicar o ocorrido, mas sabia que ela não o veria, não naquele momento. Teriam que se ver em dois dias, não poderiam escapar da escola. Teria que pensar em como se explicar.
            A garota corria mais rápido do que imaginava que conseguia, seus sentimentos estava confusos, um turbilhão de emoções passava por sua mente e coração. Ouvira de seu melhor amigo em muito tempo, palavras que deveriam ser ditas para a pessoa que amamos. Não sabia exatamente em que pensar, há alguns dias havia se perguntado o porquê de não interessar-se por outros meninos, havia pensado bastante nele, mas afastou esse pensamento, pensava nele como um irmão mais velho, protetor, melhor amigo e confidente, não sentia nada mais por ele, ou achava que não sentia. Naquele momento, perguntava em seu intimo porque correra dele, realmente havia se apaixonado? Mais perguntas se formavam e a nenhuma delas conseguiu responder. Precisava ficar sozinha, pensar claramente, mas seu cérebro não a deixava esquecer as palavras dele e uma mais que qualquer outra:
- Eu te amo!
            Ela arfava, estava quase em casa, nunca pensou que chegaria tão rápido, a confusão em sua mente aumentava ainda mais quando parava de correr, mas assim que chegasse em casa teria de parar, precisaria pensar e rever seus sentimentos, não queria, mas era necessário.
            O que os dois amigos não imaginavam é que esse pequeno mal-entendido os levaria a uma longa história...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Raios de um Sol


            Os dias passavam e cada vez mais eu me distanciava do objetivo de minha viagem, olhava os longos dias monótonos que havia percorrido em minhas férias, todos iguais. Minha mente vagava pelas mentes soltas de pessoas desinteressantes, minha própria mente tornava-se monótona e cinza.
            Desde o ocorrido a beira-rio, eu tentava focar meus pensamentos, procurar soluções lógicas, mas nada me satisfazia. Seus olhos lacrimosos, sua expressão de dor e angustia não desimpregnavam de minha mente. Havia sido solícita comigo, havia me pedido que fosse vê-la e eu simplesmente havia cortado seus sentimentos em duas metades, como uma laranja madura. Eu estava dividido, por um lado havia a pessoa que me fazia sentir bem e despreocupado em sua companhia e por outro havia a pessoa que tanto me amou, esperou um tempo que eu não pude ser preciso se voltaria ao lar ou não. Ela fez o certo, disso não tenho duvidas e afirmo que faria o mesmo em seu lugar. Comecei a pensar se devia ter voltado, se tudo o que decidi fazer seria o certo, seria realmente o que era devido. Havia me posto em situação difícil, em minhas mãos os sentimentos de duas pessoas que gostavam de mim e a minha divisão de sentimentos. Passava meus dias pensando, passeava com os amigos de quando em vez, mas a questão não me era límpida como água.
            Havia dias que simplesmente sumia, tomava um rumo incerto e caminhava nas longas e sombrias ruas de inverno. Havia me decidido a pontuar os sentimentos, arquivar pensamentos e organizar minhas ideias. Minhas memorias iam de uma a outra, seus rostos, diferentes e ao mesmo tempo ambos aconchegantes, seus modos de ser e agir, o jeito que me abraçavam, como me beijavam. Não podia, não deveria ficar com as duas. Certo filósofo disse que o amor é egoísta e exclusivista, realmente entedia o que estava falando tal homem. O amor por vezes é algo reprimidor, silenciador e manipulador. Queremos tanto essa pessoa que a queremos sempre, do nosso lado e só para nós. Mas naquele momento quem eu queria? Quem era essa pessoa que seria minha e somente minha? Muitas perguntas, nenhuma resposta. Durante alguns dias caminhei, sob o céu nevoento e acinzentado de inverno, passei por rostos conhecidos e desconhecidos, acenava com a cabeça, com os braços, entretanto eram reflexos involuntários, meu eu realmente não estava presente, estava absorto em minha própria vontade de terminar com coisas que não deveria nem ter começado.
            Certo dia, em um fim de tarde avermelhado, por sobre os galhos secos das árvores na pequena praça da cidade eu a vi, só, caminhava em minha direção, passo apurado, compassado e o mais impressionante, extremamente decidido. Vinha com a cabeça abaixada, olhando seus sapatos em ritmado movimento. De longe pude sentir a barreira que colocou em torno de sua mente, estava me bloqueando, sorri em júbilo. Procurei rachaduras em sua muralha, algo que a fizesse sentir que eu estava com ela, perto dela, quando achei mandei o sinal que nem eu nem ela podíamos esquecer: uma linda borboleta vermelha. Ela captou o sinal, levantou a cabeça e sorriu, parecia muito mais feliz, brilhante e firmemente focada em algo. Paramos a menos de um braço de distância um do outro:
 - Nos encontramos ao acaso? – eu perguntei sorrindo.
 - Não, - ela sorriu – aprendi a captar você.
- Interessante – deixei um sorriso torto nos lábios – então, como ficamos?
- Eu o amo, você sempre soube disso – sua expressão mudou, tornou-se mais jovial e ao mesmo tempo determinada – apenas quero que me diga: você me ama?
            Eu não tinha mais dúvidas, era com ela, a pessoa que sempre me amou, aquela que sempre me esperou e que nunca me esqueceu, tinha a maior certeza da minha vida, era com ela que queria ficar...
[...]

sexta-feira, 30 de março de 2012

Crescer


Deixando um pouco de lado os contos que escrevo nesse blog, queria falar sobre algo que vem preenchendo meus pensamentos ultimamente. Durante algum tempo eu sempre me perguntei o que significava crescer, porque essa palavra me assustava tanto? Seria me tornar adulto, responsável, deixar de ser quem eu sou para entrar num mundo completamente estranho, onde as pessoas querem passar umas por cima das outras, trabalhar, formar família e deixar de lado tudo aquilo que sempre prezei tudo aquilo de que sempre gostei?
Posso dizer, com um pouco de receio das minhas próprias palavras que crescer não é só o dito acima, é mais do que se tornar um membro “produtivo” da sociedade, é além de tudo evoluir. Eu tinha medo de ter que largar coisas que sempre gostei de fazer, de caminhar por um lugar obscuro ao qual chamam de “Vida Adulta”. Não que ainda não tenha esse medo, ele continua me perseguindo em cada esquina que eu dobro, a cada entrevista de emprego, enfim, em todos os momentos da minha vida, mas eu aprendi algumas coisas com alguns autores, principalmente com C.S Lewis, sobre como amadurecer e ainda assim não deixar de sermos quem fomos em nossa infância e adolescência, se claro, dosarmos com moderação tais coisas.
Uma delas é nunca perder o gosto por aquilo que se gosta de fazer. Nunca deixe de jogar video-games com seus amigos ou sozinho, não deixe de ler aquele livro de fantasia que você tanto gosta, de brincar com seus amigos, porque deixar morrer a criança que existe em você por convenções sociológicas é matar o seu eu mais alegre, é deixar de imaginar mundos inimagináveis, é deixar de sonhar com o impossível, simplesmente é perder o senso de que o mundo quando visto de uma ótica mais infantil pode sim ser mágico e obstáculos podem ser vencidos. Não tenha medo de adicionar mais gostos aos seus já existentes, não tenha medo de tentar o novo, seu espírito adolescente é o que impulsiona você ao incerto, ao duvidoso, a aventuras. Lembrar-se de que ter coragem não é ausência de medo e sim a força para enfrenta-lo. Crescer demanda mudanças, em nossa visão de mundo, de percepção social, de noções éticas, entretanto não significa que precisamos perder toda aquela bagagem de emoções, conhecimentos, vontades e principalmente nossos gostos para nos tornarmos adultos.
Opiniões foram feitas para serem ignoradas, não se guie por aquilo que os outros pensam de você, não deixe que a sua opinião e quem você é seja subjugado pelo pensamento fechado e medíocre dos outros, o importante é estar bem consigo mesmo, gostar de ser quem somos, admirar a beleza das coisas de um ângulo mais aberto. Crescer é uma forma de lapidar tudo aquilo que fomos aprendendo durante nossos anos de infância e adolescência, poder chegar ao patamar da tão temida “Vida Adulta” e saber que dentro de nós vive a criança que sonha e imagina e o adolescente que é destemido e rebelde, sabendo dosar essas duas facetas de nós mesmos, ser adulto não é tão assustador e nem tão complicados quanto pensávamos. Precisamos da nossa criança interior para continuar sonhando e imaginando e precisamos do adolescente para ousar a transformação desses sonhos e pensamentos em realidade e precisamos usar a fase adulta de nossa vida para ter a certeza e a confiança necessária pra levarmos nossos planos adiante.
Não tenha medo do novo, não tenha medo de EVOLUIR, tenha sim medo de ser um adulto vazio, frustrado e sem sonhos. Tenha medo de ser oco, sem pensamentos novos e sem a audácia de fazer as coisas acontecerem. Ande pelo caminho que você trilhou, sem passar por cima de ninguém, receba os méritos pelo seu trabalho duro e seja sempre aquela pessoa sonhadora, que acredita na humanidade, mas tenha os pés no chão para que o voo não termine em uma queda horrenda.
Cresça, evolua, aprenda e se molde, mas nunca esqueça quem um dia você foi...

domingo, 4 de março de 2012

Dia Nebuloso

Uma tênue luz entrava pela fresta da cortina, eu havia acordado há algumas horas, mas continuava na cama, como se isso fosse resolver as coisas para mim... Mais uma vez havia me posto em posição difícil, havia começado algo que não poderia terminar do jeito que queria, entretanto tudo aconteceu tão depressa, a chegada, o beijo, o calor da mão dela... Seriam longas férias e elas mal tinham começado. Soltei um longo bocejo e ergui-me da cama, esfreguei os olhos, ainda sonolento e caminhei em direção ao banheiro, o chão frio me fez tomar consciência de que estava acordado e que precisaria enfrentar o que estava reservado para mim.
Estava tomando café da manhã, quando meu celular tocou, não podia acreditar com quem estava falando, ela me ligara escondida, querendo marcar um encontro para podermos conversar e acertar as coisas de uma vez por todas. Minha mente tentava vagar pelos pensamentos dela, mas ela aprendera a me bloquear direito, sorri em júbilo sabendo que seria uma conversa franca dessa vez. Marcamos o horário e o lugar e ela desligou dizendo:
- Senti tanto sua falta... – sua voz parecia cansada, mas havia um que de emoção nela.
Fazia mais de um ano desde que nos separamos de forma abrupta e meu coração ainda perdia o compasso ao escutar sua voz melodiosa, olhei o relógio, ainda tinha mais algumas horas até o nosso encontro, olhei pela janela da cozinha e grandes e espessas nuvens escuras começavam a se juntar por sobre a cidade, poderíamos esperar muito frio esse inverno.
[...]
Minhas pernas tremiam, eu olhava constantemente no relógio, esperava ela há trinta minutos, meu coração estava em descompasso quando recebi um alerta de mensagem, retirei o celular do bolso e abri a mensagem:
“Desculpa, mas não posso ir... ainda não quero que
termine, ainda não quero te perder...”
Minhas mãos geladas tremiam, eu não sabia o que pensar, minha mente se expandiu e eu perdi o controle dos meus pensamentos, o rosto dela vinha constantemente. Liguei para [...] ele atendeu e perguntou o que tinha acontecido comigo, respondi que estava afim de sair, precisava me divertir.
- Não posso sair cara, já tenho outros planos, desculpa mesmo...
Desligou o telefone enquanto eu pensava no que estava acontecendo. Procurei o nome da [...] em minha lista telefônica, disquei e ela atendeu, com uma voz suave como veludo, sabia que era eu e sabia o que eu precisava, disse que estaria comigo em quinze minutos.
[...]
Estávamos juntos fazia meia hora, o calor do seu abraço quebrava o frio do dia e as fortes rajadas de vento à beira-rio, estava sentada de frente pra mim, seus braços envolviam meu pescoço enquanto os meus envolviam a sua cintura, eu havia enterrado meu rosto em seus cabelos e sentia a essência do seu shampoo enquanto ela brincava com meus cachos, não falávamos palavra, de repente ela afastou um pouco o seu rosto, me olhou fundo nos olhos e foi como se toda a minha angustia estivesse sendo sugada para fora, eu podia sentir todas os meus anseios serem aspirados por aqueles olhos. Por alguns momentos ficamos apenas os dois e os sons do rio, meus músculos agiram por vontade própria e eu a segurei mais forte, ela soltou um suspiro e eu a beijei, sabia que não era o certo, sabia que eu só ia fazer ela se machucar, mas aqueles olhos eram irresistíveis, sua boca pequena me atraía, simplesmente a beijei, ela se entregou totalmente aquele sentimento, aquele momento,  mas algo estava errado, havia uma outra série de pensamentos além dos nossos, me concentrei neles e encontrei uma barreira, minha mente não queria acreditar que ela estava lá. Paramos, olhei para o lado, lá estava, com os braços cruzado na frente do peito, uma lágrima corria no canto dos seus olhos:
- Desculpa se interrompi alguma coisa... – limpou as lágrimas com a manga do casaco e saiu andando depressa. Eu queria sair atrás dela, queria segurar seu braço e dizer para ficar, só havia voltado por sua causa, mas não o fiz e deixei que se fosse. A menina sentada em meu colo me olhou e disse que eu precisava ficar sozinho, levantou-se e me deixou sozinho, novamente aquela série de pensamentos me assaltaram, a noite entrava e o frio aumentava.
Mais um dia perdido, pensei, novamente faço coisas sem pensar e mais uma vez perco amigos por bobagem, estou melhorando, fechei minha mente e meus sentimentos, e comecei a caminhar em direção a minha casa, uma fina neblina começava a cobrir a cidade e mais uma vez precisaria começar tudo denovo...