sexta-feira, 20 de abril de 2012

Raios de um Sol


            Os dias passavam e cada vez mais eu me distanciava do objetivo de minha viagem, olhava os longos dias monótonos que havia percorrido em minhas férias, todos iguais. Minha mente vagava pelas mentes soltas de pessoas desinteressantes, minha própria mente tornava-se monótona e cinza.
            Desde o ocorrido a beira-rio, eu tentava focar meus pensamentos, procurar soluções lógicas, mas nada me satisfazia. Seus olhos lacrimosos, sua expressão de dor e angustia não desimpregnavam de minha mente. Havia sido solícita comigo, havia me pedido que fosse vê-la e eu simplesmente havia cortado seus sentimentos em duas metades, como uma laranja madura. Eu estava dividido, por um lado havia a pessoa que me fazia sentir bem e despreocupado em sua companhia e por outro havia a pessoa que tanto me amou, esperou um tempo que eu não pude ser preciso se voltaria ao lar ou não. Ela fez o certo, disso não tenho duvidas e afirmo que faria o mesmo em seu lugar. Comecei a pensar se devia ter voltado, se tudo o que decidi fazer seria o certo, seria realmente o que era devido. Havia me posto em situação difícil, em minhas mãos os sentimentos de duas pessoas que gostavam de mim e a minha divisão de sentimentos. Passava meus dias pensando, passeava com os amigos de quando em vez, mas a questão não me era límpida como água.
            Havia dias que simplesmente sumia, tomava um rumo incerto e caminhava nas longas e sombrias ruas de inverno. Havia me decidido a pontuar os sentimentos, arquivar pensamentos e organizar minhas ideias. Minhas memorias iam de uma a outra, seus rostos, diferentes e ao mesmo tempo ambos aconchegantes, seus modos de ser e agir, o jeito que me abraçavam, como me beijavam. Não podia, não deveria ficar com as duas. Certo filósofo disse que o amor é egoísta e exclusivista, realmente entedia o que estava falando tal homem. O amor por vezes é algo reprimidor, silenciador e manipulador. Queremos tanto essa pessoa que a queremos sempre, do nosso lado e só para nós. Mas naquele momento quem eu queria? Quem era essa pessoa que seria minha e somente minha? Muitas perguntas, nenhuma resposta. Durante alguns dias caminhei, sob o céu nevoento e acinzentado de inverno, passei por rostos conhecidos e desconhecidos, acenava com a cabeça, com os braços, entretanto eram reflexos involuntários, meu eu realmente não estava presente, estava absorto em minha própria vontade de terminar com coisas que não deveria nem ter começado.
            Certo dia, em um fim de tarde avermelhado, por sobre os galhos secos das árvores na pequena praça da cidade eu a vi, só, caminhava em minha direção, passo apurado, compassado e o mais impressionante, extremamente decidido. Vinha com a cabeça abaixada, olhando seus sapatos em ritmado movimento. De longe pude sentir a barreira que colocou em torno de sua mente, estava me bloqueando, sorri em júbilo. Procurei rachaduras em sua muralha, algo que a fizesse sentir que eu estava com ela, perto dela, quando achei mandei o sinal que nem eu nem ela podíamos esquecer: uma linda borboleta vermelha. Ela captou o sinal, levantou a cabeça e sorriu, parecia muito mais feliz, brilhante e firmemente focada em algo. Paramos a menos de um braço de distância um do outro:
 - Nos encontramos ao acaso? – eu perguntei sorrindo.
 - Não, - ela sorriu – aprendi a captar você.
- Interessante – deixei um sorriso torto nos lábios – então, como ficamos?
- Eu o amo, você sempre soube disso – sua expressão mudou, tornou-se mais jovial e ao mesmo tempo determinada – apenas quero que me diga: você me ama?
            Eu não tinha mais dúvidas, era com ela, a pessoa que sempre me amou, aquela que sempre me esperou e que nunca me esqueceu, tinha a maior certeza da minha vida, era com ela que queria ficar...
[...]

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