Os dois andavam cada vez mais
distantes, fora apenas um mal entendido, mas mudara completamente o longo
relacionamento que tinham.
Havia
alguns dias tinham combinado de encontrarem-se para sair a caminhar pelo
distrito comercial da cidade, pensaram em comer algo em um café argentino,
olhar algumas lojas, ela de roupas e livros e ele de jogos e CDs, nada fora do
comum.
Marcaram
de se encontrarem na frente da estação de trens, seu local habitual. O garoto
caminhava compassado, em um ritmo quase musical. A menina em leves passos
curtos, quase como uma bailarina. Ele, com o cabelo negro remexido pelo vento e
ela com seus longos cabelos acobreados ondulando ao sabor da brisa. Caminhavam
rumo ao local de encontro, sem preocupações, era outono e as folhas caíam
levemente nas calçadas. Conheciam-se desde o primário, eram quase como irmãos,
ele sempre a protegeu de todo “mal” que pode, consolou-a em seu primeiro
relacionamento falido, passava calmamente a mão por sua cabeça cor de fogo
enquanto murmurava que estava tudo bem. Ela havia sido seu pilar de força
quando ele também se machucou em seu primeiro relacionamento, passava levemente
suas alvas mãos pelos negros cabelos dele, sem dizer palavra. Tratavam-se como
irmãos desde a 8ª série, muitos boatos surgiam em torno do relacionamento dos
dois, mas nunca deixaram eles acabarem com tão longa amizade.
O
garoto gostava de certa menina de sua turma, que por sua vez era amiga de sua
“irmã”, a qual pediu que arranjasse um encontro entre os dois. A garota por sua
vez não sentia nada em particular por garoto nenhum, o que para ela era, de
certo modo, muito bom, pois podia concentrar-se em seus treinos de karatê.
Era
quase o horário combinado, os dois estavam bem próximos da estação, o garoto
podia avistar as barras de proteção prateadas na calçada, mas o que mais
saltava a sua vista era a menina de quem gostava. Seus cabelos dourados
esvoaçavam ao sol de outono. Conversava com algumas amigas, tinha um ar
delicado e feminino, o garoto sorriu, tinha decidido que falaria com ela
naquele momento, esquecera do encontro com sua amiga. Caminhou a passos firmes
em sua direção, resoluto. A garota avistou de longe seu “irmão” caminhando
firmemente em direção a estação, podia ver um pequeno sorriso em seu semblante,
determinado como nunca vira. Apressou-se e foi em sua direção, colocando-se em
frente à menina com a qual ele falava. Não a vira ali recuada perto da parede,
saudou-o com um sorriso nos lábios, mas parou a meia palavra quando ouviu as
palavras de amor do garoto que há muito tinha como um irmão. Ele de olhos semicerrados,
pronunciava seu afeto para quem achava que era sua “amada”, sua melhor amiga
atônita com as palavras que escutava e a outra menina havia sumido, caminhando
com suas amigas. Naquele instante, eram apenas os dois, de pé em frente à
estação quase vazia.
O
garoto abriu os olhos e viu para quem havia se confessado. A menina estava
congelada diante dele, mais corada que o habitual. Tentou pronunciar algo que
explicasse o ocorrido, mas não foi rápido o suficiente, ela havia corrido para
longe dele. Tentou a alcançar, mas com o condicionamento físico dela, foi
inútil. Ligou para o celular dela, apenas caixa postal, pensou em ir a sua
casa, explicar o ocorrido, mas sabia que ela não o veria, não naquele momento.
Teriam que se ver em dois dias, não poderiam escapar da escola. Teria que
pensar em como se explicar.
A
garota corria mais rápido do que imaginava que conseguia, seus sentimentos
estava confusos, um turbilhão de emoções passava por sua mente e coração.
Ouvira de seu melhor amigo em muito tempo, palavras que deveriam ser ditas para
a pessoa que amamos. Não sabia exatamente em que pensar, há alguns dias havia
se perguntado o porquê de não interessar-se por outros meninos, havia pensado
bastante nele, mas afastou esse pensamento, pensava nele como um irmão mais
velho, protetor, melhor amigo e confidente, não sentia nada mais por ele, ou
achava que não sentia. Naquele momento, perguntava em seu intimo porque correra
dele, realmente havia se apaixonado? Mais perguntas se formavam e a nenhuma
delas conseguiu responder. Precisava ficar sozinha, pensar claramente, mas seu
cérebro não a deixava esquecer as palavras dele e uma mais que qualquer outra:
- Eu te amo!
Ela
arfava, estava quase em casa, nunca pensou que chegaria tão rápido, a confusão
em sua mente aumentava ainda mais quando parava de correr, mas assim que
chegasse em casa teria de parar, precisaria pensar e rever seus sentimentos,
não queria, mas era necessário.
O
que os dois amigos não imaginavam é que esse pequeno mal-entendido os levaria a
uma longa história...
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