sábado, 2 de junho de 2012

Início


Os dois andavam cada vez mais distantes, fora apenas um mal entendido, mas mudara completamente o longo relacionamento que tinham.
            Havia alguns dias tinham combinado de encontrarem-se para sair a caminhar pelo distrito comercial da cidade, pensaram em comer algo em um café argentino, olhar algumas lojas, ela de roupas e livros e ele de jogos e CDs, nada fora do comum.
            Marcaram de se encontrarem na frente da estação de trens, seu local habitual. O garoto caminhava compassado, em um ritmo quase musical. A menina em leves passos curtos, quase como uma bailarina. Ele, com o cabelo negro remexido pelo vento e ela com seus longos cabelos acobreados ondulando ao sabor da brisa. Caminhavam rumo ao local de encontro, sem preocupações, era outono e as folhas caíam levemente nas calçadas. Conheciam-se desde o primário, eram quase como irmãos, ele sempre a protegeu de todo “mal” que pode, consolou-a em seu primeiro relacionamento falido, passava calmamente a mão por sua cabeça cor de fogo enquanto murmurava que estava tudo bem. Ela havia sido seu pilar de força quando ele também se machucou em seu primeiro relacionamento, passava levemente suas alvas mãos pelos negros cabelos dele, sem dizer palavra. Tratavam-se como irmãos desde a 8ª série, muitos boatos surgiam em torno do relacionamento dos dois, mas nunca deixaram eles acabarem com tão longa amizade.
            O garoto gostava de certa menina de sua turma, que por sua vez era amiga de sua “irmã”, a qual pediu que arranjasse um encontro entre os dois. A garota por sua vez não sentia nada em particular por garoto nenhum, o que para ela era, de certo modo, muito bom, pois podia concentrar-se em seus treinos de karatê.
            Era quase o horário combinado, os dois estavam bem próximos da estação, o garoto podia avistar as barras de proteção prateadas na calçada, mas o que mais saltava a sua vista era a menina de quem gostava. Seus cabelos dourados esvoaçavam ao sol de outono. Conversava com algumas amigas, tinha um ar delicado e feminino, o garoto sorriu, tinha decidido que falaria com ela naquele momento, esquecera do encontro com sua amiga. Caminhou a passos firmes em sua direção, resoluto. A garota avistou de longe seu “irmão” caminhando firmemente em direção a estação, podia ver um pequeno sorriso em seu semblante, determinado como nunca vira. Apressou-se e foi em sua direção, colocando-se em frente à menina com a qual ele falava. Não a vira ali recuada perto da parede, saudou-o com um sorriso nos lábios, mas parou a meia palavra quando ouviu as palavras de amor do garoto que há muito tinha como um irmão. Ele de olhos semicerrados, pronunciava seu afeto para quem achava que era sua “amada”, sua melhor amiga atônita com as palavras que escutava e a outra menina havia sumido, caminhando com suas amigas. Naquele instante, eram apenas os dois, de pé em frente à estação quase vazia.
            O garoto abriu os olhos e viu para quem havia se confessado. A menina estava congelada diante dele, mais corada que o habitual. Tentou pronunciar algo que explicasse o ocorrido, mas não foi rápido o suficiente, ela havia corrido para longe dele. Tentou a alcançar, mas com o condicionamento físico dela, foi inútil. Ligou para o celular dela, apenas caixa postal, pensou em ir a sua casa, explicar o ocorrido, mas sabia que ela não o veria, não naquele momento. Teriam que se ver em dois dias, não poderiam escapar da escola. Teria que pensar em como se explicar.
            A garota corria mais rápido do que imaginava que conseguia, seus sentimentos estava confusos, um turbilhão de emoções passava por sua mente e coração. Ouvira de seu melhor amigo em muito tempo, palavras que deveriam ser ditas para a pessoa que amamos. Não sabia exatamente em que pensar, há alguns dias havia se perguntado o porquê de não interessar-se por outros meninos, havia pensado bastante nele, mas afastou esse pensamento, pensava nele como um irmão mais velho, protetor, melhor amigo e confidente, não sentia nada mais por ele, ou achava que não sentia. Naquele momento, perguntava em seu intimo porque correra dele, realmente havia se apaixonado? Mais perguntas se formavam e a nenhuma delas conseguiu responder. Precisava ficar sozinha, pensar claramente, mas seu cérebro não a deixava esquecer as palavras dele e uma mais que qualquer outra:
- Eu te amo!
            Ela arfava, estava quase em casa, nunca pensou que chegaria tão rápido, a confusão em sua mente aumentava ainda mais quando parava de correr, mas assim que chegasse em casa teria de parar, precisaria pensar e rever seus sentimentos, não queria, mas era necessário.
            O que os dois amigos não imaginavam é que esse pequeno mal-entendido os levaria a uma longa história...

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