terça-feira, 16 de novembro de 2010

Casa

Algumas conversas me entorpeciam durante minha ida para casa, só pensava que em breve teríamos que conversar. Aquilo estava sob controle, ou pelo menos era isso que eu pensava, e que eu poderia ter uma estadia sem percalços. Senti novamente sua mão quente na minha congelada, olhei em seu rosto e nada mais fazia sentido, seus pensamentos eram difusos e sem nexo, um afluxo de sentenças incondizentes com sua expressão, mas nada que me surpreendesse tanto quanto algumas coisas que me aconteceriam nos próximos dias...


- Quanto tempo? – ela me perguntou.

- Quanto tempo o que? – respondi sem pensar.

- Acho que você não entendeu, quanto tempo você vai ficar aqui? – ela retrucou com uma expressão séria e ao mesmo tempo adorável em seu rosto.

- A princípio um mês e alguns dias, por que quer saber? – tornei a olhar a sua expressão delicada, mas decidida.

- Por nada, só queria saber... – havia um tom de desilusão em sua voz de soprano.

Seus olhos grandes e expressivos me miravam com um brilho que não tinha visto ainda, me senti desconcertado com seu olhar e por um instante esqueci completamente o porquê de estar ali. Minha mente se esvaiu com um golpe surdo de martelo que eu não sabia de onde viera. Tudo mudou de cor de repente e eu estava em completo fascínio por aqueles olhos expressivos e agora mais do que nunca, profundos e misteriosos, eu não queria sair de perto deles e por mais que me esforçasse não conseguia me lembrar o porquê da viagem.

- Cara... – alguém chamava de algum lugar da escuridão, da qual eu me dava conta aos poucos que estava. – Cara, você está se sentindo bem? – insistia a voz.

- Estou. – respondi em uma meia voz, quase sem entonação.

O silencio pairou sobre os que caminhavam enquanto eu me recuperava da recente escuridão que havia me embalado como um cetim negro. As coisas começaram a fazer sentido novamente e de novo eu estava com meus pensamentos no que eu haveria de fazer e como dar um jeito no que eu havia me posto. Por outro lado eu estava ciente do que estava acontecendo com a minha vida e nada mais poderia mudar o que havia feito antes de embarcar naquele maldito ônibus para a tal cidade.

- Você parece confuso, está precisando de algo? – uma voz familiar me pegou de surpresa enquanto ainda segurava a mão dela na minha.

- Não, estou bem. – respondi com o resquício de voz que me sobrara.

Senti minha mão ser apertada e novamente mirei os olhos expressivos dela, me diziam alguma coisa que não pude entender e nem fiz questão de vasculhar seus pensamentos e expressão para saber do que se tratava...

Estava exausto da viagem, de caminhar e de escutar coisas sem nexo vindas dos pensamentos obscuros das pessoas.

Uma garoa mansa começava a descer do céu enquanto caminhávamos em silêncio novamente. Minha mente vagueava entre meus pensamentos iniciais da viagem e meus pensamentos em relação àquela pequena mulher que se segurava em minha mão. Sabia que duraria muito pouco o que quer que tivéssemos, mas eu não estava muito preocupado com isso no momento. Eu estava preocupado em como terminar uma das coisas que havia deixado inacabadas.

Eu sabia que algumas coisas não tinham volta, mas mesmo assim eu tentaria até as últimas conseqüências. Não é uma das coisas que mais me orgulho, mas sou persistente demais em relação a algumas coisas e geralmente eu ia até o final de algo, não importando o quanto me machucasse ou o quanto me fizesse mal, eu só queria que tudo terminasse bem, ou que pelo menos terminasse.

- Estou com frio... – ela me disse enquanto me abraçava forte.

- Sim, eu também estou com frio. – sorri ternamente para ela enquanto a envolvia em meus braços, grandes o suficiente para protegê-la.

Assim continuamos caminhando em direção ao que de agora até o fim de minha estadia, eu chamaria de lar. O grupo continuava silencioso, o único som que rompia esse véu enevoado era o barulho da garoa batendo no chão e nos casacos das pessoas que caminhavam envolvidas por suas angustias e anseios...

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