Os dias passavam e cada vez mais eu
me distanciava do objetivo de minha viagem, olhava os longos dias monótonos que
havia percorrido em minhas férias, todos iguais. Minha mente vagava pelas
mentes soltas de pessoas desinteressantes, minha própria mente tornava-se
monótona e cinza.
Desde o ocorrido a beira-rio, eu
tentava focar meus pensamentos, procurar soluções lógicas, mas nada me
satisfazia. Seus olhos lacrimosos, sua expressão de dor e angustia não
desimpregnavam de minha mente. Havia sido solícita comigo, havia me pedido que
fosse vê-la e eu simplesmente havia cortado seus sentimentos em duas metades,
como uma laranja madura. Eu estava dividido, por um lado havia a pessoa que me
fazia sentir bem e despreocupado em sua companhia e por outro havia a pessoa
que tanto me amou, esperou um tempo que eu não pude ser preciso se voltaria ao
lar ou não. Ela fez o certo, disso não tenho duvidas e afirmo que faria o mesmo
em seu lugar. Comecei a pensar se devia ter voltado, se tudo o que decidi fazer
seria o certo, seria realmente o que era devido. Havia me posto em situação
difícil, em minhas mãos os sentimentos de duas pessoas que gostavam de mim e a
minha divisão de sentimentos. Passava meus dias pensando, passeava com os
amigos de quando em vez, mas a questão não me era límpida como água.
Havia dias que simplesmente sumia,
tomava um rumo incerto e caminhava nas longas e sombrias ruas de inverno. Havia
me decidido a pontuar os sentimentos, arquivar pensamentos e organizar minhas
ideias. Minhas memorias iam de uma a outra, seus rostos, diferentes e ao mesmo
tempo ambos aconchegantes, seus modos de ser e agir, o jeito que me abraçavam,
como me beijavam. Não podia, não deveria ficar com as duas. Certo filósofo
disse que o amor é egoísta e exclusivista, realmente entedia o que estava
falando tal homem. O amor por vezes é algo reprimidor, silenciador e
manipulador. Queremos tanto essa pessoa que a queremos sempre, do nosso lado e
só para nós. Mas naquele momento quem eu queria? Quem era essa pessoa que seria
minha e somente minha? Muitas perguntas, nenhuma resposta. Durante alguns dias
caminhei, sob o céu nevoento e acinzentado de inverno, passei por rostos
conhecidos e desconhecidos, acenava com a cabeça, com os braços, entretanto
eram reflexos involuntários, meu eu realmente não estava presente, estava
absorto em minha própria vontade de terminar com coisas que não deveria nem ter
começado.
Certo dia, em um fim de tarde
avermelhado, por sobre os galhos secos das árvores na pequena praça da cidade
eu a vi, só, caminhava em minha direção, passo apurado, compassado e o mais
impressionante, extremamente decidido. Vinha com a cabeça abaixada, olhando
seus sapatos em ritmado movimento. De longe pude sentir a barreira que colocou
em torno de sua mente, estava me bloqueando, sorri em júbilo. Procurei
rachaduras em sua muralha, algo que a fizesse sentir que eu estava com ela,
perto dela, quando achei mandei o sinal que nem eu nem ela podíamos esquecer:
uma linda borboleta vermelha. Ela captou o sinal, levantou a cabeça e sorriu,
parecia muito mais feliz, brilhante e firmemente focada em algo. Paramos a
menos de um braço de distância um do outro:
- Nos encontramos ao acaso? – eu perguntei
sorrindo.
- Não, - ela sorriu – aprendi a captar você.
-
Interessante – deixei um sorriso torto nos lábios – então, como ficamos?
- Eu
o amo, você sempre soube disso – sua expressão mudou, tornou-se mais jovial e
ao mesmo tempo determinada – apenas quero que me diga: você me ama?
Eu não tinha mais dúvidas, era com
ela, a pessoa que sempre me amou, aquela que sempre me esperou e que nunca me
esqueceu, tinha a maior certeza da minha vida, era com ela que queria ficar...
[...]