sábado, 12 de junho de 2010

Flashback - I

"- Precisamos conversar - eu disse enquanto meu amigo abria o estabelecimento em que trabalhava.
 - É, eu sei... - ela disse me olhando com um sorriso apagado no canto dos lábios.
 - Onde pode ser? - perguntei olhando meus pés, como se eles fossem o alvo da conversa.
 - Na praça?
 - Pra mim tá bom.
 Subimos a rua do estabelecimento, chegamos na esquina e atravessamos a rua, sem nos olharmos diretamente nos olhos e sem dizermos palavra. Em minha mente flutuavam diversas questões:
'Será que é isso mesmo?' 'Vai ser melhor assim?' 'Não quero mais brigar, mas...' 'É, é isso que eu quero mesmo e se não der certo, paciência...''
 Na cabeça dela as questões eram outras e eu sabia quais eram, não por 'saber', mas porque eu estava lendo, escutando e vendo.
 Sei que isso não é muito delicado, mas eu precisava saber, ter certeza de que estava fazendo a escolha certa, que era realmente a melhor saída. Havíamos nos machucado muito nesses últimos dias, mais do que o necessário e eu queria o que devia ter feito desde o começo, quando éramos apenas amigos, mas o medo da reação dela e da repercussão era enorme. Aguardei.
 Sentamos em um banco no meio da praça e ficamos um tempo em silêncio. Após algum tempo, não aguentei e comecei a falar:
 - Acho que sabes o que eu tenho pra te dizer né?
 - Sei, mas tenho medo...
 - De quê? Da minha reação ou a tua resposta?
 - Não, da minha resposta e da minha reação... - olhou os pés e fungou, estava chorando.
 Em sua cabeça havia um turbilhão de imagens, sons, e frases, quase não consegui sair de lá...
 - Tudo bem, eu tô preparado pra qualquer resposta e qualquer reação
 - Tá bem.
 - Preciso falar alguma coisa?
 - Acho que sim, pra eu poder digerir bem.
 - Ok, vou começar... - suspirei e recomecei a falar - Não quero mais ser só teu amigo, na verdade não consigo mais. Cada vez que eu estou do teu lado, quero simplesmente uma coisa e eu nem preciso falar, porque tu sabes. Não posso mais ficar assim, não durmo, não como, não sei mais como resolver isso.
 - É eu sei, mas...
 - Olha eu sei que é dificil - me levantei e circundei o banco, ela ficou sentada e eu a abracei por trás - mas eu posso esperar a tua resposta, mas não tenho tanto tempo.
 - Eu sei, mas é dificil...
 - Eu sei - apertei mais o abraço e lhe dei um beijo na testa - sendo qual for a tua resposta, nada vai mudar entre nós, mas tem que ser o mais breve possível...
 Continuei olhando seu rosto, que agora me fitava com olhos castanhos tão escuros que pareciam a aproximação de uma tempestade, e a vi se inclinando em minha direção, sem ação mais fácil, cheguei mais perto e aconteceu.
 No meio da praça, sem pressa, sem nervosismo, como se aquilo fosse feito por nós há muito tempo, nos beijamos, profundamente, tranquilamente e o mais incrível, apaixonadamente, como se nada mais existisse. Nem o céu, a terra em nossos pés, as pessoas, nada, só nós. 'Queríamos' que aquilo nunca acabasse, que fosse eterno. 'Queríamos', sem saber li seus pensamentos e vi o que ela realmente queria. Mas era algo que eu não podia fazer, meu futuro estava traçado. E o pior, longe dela... Ela viu o que estava ocorrendo comigo e me tranquilizou, foi melhor ainda daquele jeito, mesmo com o fantasma de um futuro longe dela pairando sobre nós, junto com as nuvens carregadas de tempestade..."

terça-feira, 8 de junho de 2010

Mais uma História...

Peguei o ônibus e segui viagem, mais algumas horas e estaria em [...], claro todos estariam me esperando, claro todos estariam ansiosos. Quanto tempo se passara? Dois anos, um? Quem sabe? Tudo o que importava é que eu estaria de volta, mais nada.
É claro que havia conversado com [...] e é claro que eu esperava algo mais do que apenas uma recepção calorosa, mas nada me indicava algo tão certo quanto eu esperava. A viagem era longa e eu estava cansado de estar no maldito ônibus, viajando havia quantas horas? Cinco, talvez seis e mesmo assim não sabia o que estava me esperando além de meus amigos. Ok, sabia que nada mais me surpreenderia depois do que aconteceu lá em [...], mas mesmo assim eu estava contente por estar voltando e mais ainda por estar me tornando algo que eu realmente esperava.
O solavanco me avisou que o grande maciço de ferro e plástico estava diminuindo a velocidade para entar em mais alguma cidade do interior. Maldito pinga-pinga, mas fazer o que, a escolha foi minha e de mais ninguém e nada poderia mudar o que eu havia feito enquanto estava em [...].
Tudo bem, passado é passado e nada mais poderia apagar as coisas nas quais me meti, mas poxa eu era tão inesperiente e agora eu consigo ver o quanto aquelas decisões me afetaram durante os anos em que estive longe. Suspirei enquanto o ônibus voltava a se mecher e tomar o rumo a [...], olhei o relógio, eram quatro da tarde, mais algumas horas e eu estaria junto das pessoas que haviam me esperado durante um bom tempo.
Imaginei seus rostos, lívidos pelo frio, os olhos brilhando, mas não sei se de comoção ao me ver ou se era o vento gelado batendo em suas órbitas.
Adormeci [...]
O breque brusco do pequeno ônibus me acordou, olhei em volta e podia ver que chegara onde eu queria chegar. Corri às horas, 19h30min, antes do que eu havia previsto. Espreguicei-me e puxei a mochila debaixo do banco onde vim durante toda a maçante e exaustiva viagem. Havia esquecido de como [...] era longe, havia esquecido o real motivo por estar voltando lá depois de tanto tempo,
(Um ano, dois? Não sei)
entretanto não havia esquecido o motivo por que tanto me irritei durante todaa viagem. Não passaria mais que um mês ali e queria ter certeza de que tudo quanto deixei poderia ser corrigido ou terminado. Ledo engano, aquilo mal estava começando e eu estava bem no meio da linha de fogo. Não sabia que haveriam coisas que pudessem mudar minha vida.
Desci do ônibus, coloquei a minha jaqueta de couro marrom, tirei os cabelos do rosto que haviam sido jogados ali pelo vento, coloquei a mochila em um dos ombros e procurei por seus rostos.
Estavam todos lá, inclusive [...] com alguém que reconheci ser [...], olhou-me com carinho e piscou os olhos vermelhos,
(Havia chorado ou seria o vento?)
olhou para cima e ele a [...].
Haviam me visto e vieram em minha direção, todos sorridentes e felizes. Sim, eu havia mudado bastante, mas não o suficiente para que não me reconhecessem. Senti uma ponta de tristeza brotar em meu peito. Suprimi. Caminhei na direção deles com o meu melhor sorriso de relações públicas. Haviam duas pessoas que não reconheci ao primeiro olhar, estavam junto de meus velhos amigos. Havia uma morena com o [...] e ao seu lado reconheci sua [...], com quem havia trocado alguns e-mails e conversações pelo Messenger. Haviamos combinado de [...]. A garota me viu e correu em minha direção, chegando antes de todos e pulando em meu colo. Deixei a mochila cair e a segurei. Me beijou. Rápido, mas forte o suficiente para me deixar com a sensação de posse. Procurei na turba de amigos seu rosto. Lá estava, com um meio sorriso e uma dor escondida em algum lugar de seu corpo. Eu não queria que fosse assim, mas...
Coloquei-a no chão e peguei minha mochila. Ela se pendurou em meu braço e logo estava com a sua mão quente na minha gelada e fria. Conversamos no tempo em que o resto deles chegava. Estava ansiosa para me ver. Procurei mais rostos na turba, encontrei o rosto dela. Desviei. O dele. Havia mágoa ou algo que eu não conseguia ler.
-Preciso chegar em casa - disse eu arrumando a mochila, enquanto ela não largava a minha mão.
"Serão longas férias", pensei comigo enquanto caminhava pela rua com meus amigos rumo à minha casa...